A Apple apresentou esta quarta-feira uma série de novidades no seu evento “Surprise and Shine”, entre as quais uma profunda atualização da Siri baseada em inteligência artificial. A nova versão chegará com o iOS 27 e permitirá, entre outras funcionalidades, acompanhar conversas em direto através do iPhone ou Apple Watch e apresentar posteriormente um resumo do que foi dito.
A nova Siri, anunciada pela primeira vez e disponibilizada aos programadores em junho, estará disponível a partir de 14 de setembro, com o lançamento do iOS 27.
Uma das principais novidades é a funcionalidade Recap, que permite à Siri acompanhar uma conversa e produzir um resumo, incluindo citações do que foi dito. A ideia é permitir ao utilizador recuperar informação que possa ter perdido durante uma conversa.
Na prática, isto significa que uma conversa poderá deixar de depender exclusivamente da memória de quem nela participou. Se, por exemplo, forem discutidas várias informações, datas ou decisões, a Siri poderá apresentar posteriormente um resumo dos principais pontos e incluir excertos da própria conversa.
A Apple anunciou também uma funcionalidade chamada Live Rewind, que chegará ao Apple Watch e permite transcrever os últimos 15 segundos de uma conversa. É uma espécie de “voltar atrás” imediato: se o utilizador não tiver percebido ou retido aquilo que acabou de ser dito, poderá consultar a transcrição dos segundos anteriores.
E a privacidade?
A Apple garante que os seus dispositivos não irão manter gravações de áudio das conversas. A empresa afirma ainda que as conversas processadas pelas funcionalidades Recap e Live Rewind são protegidas por encriptação de ponta a ponta.
A explicação sobre privacidade, contudo, deixa algumas perguntas em aberto. A informação divulgada pela Apple sobre o assunto é relativamente breve e não esclarece em detalhe como o sistema de inteligência artificial consegue utilizar informação sobre o utilizador sem a conservar.
A Apple afirma que o sistema consegue estar “ciente” da informação pessoal do utilizador sem a recolher. Segundo a empresa, o Apple Intelligence pode recorrer a modelos de inteligência artificial alojados em servidores de maior dimensão sem tornar os dados do utilizador acessíveis à Apple ou a terceiros.
O que mais muda com o iOS 27?
A atualização não se limita à capacidade de resumir conversas. A Siri vai tornar-se também mais conversacional, permitindo aos utilizadores fazer perguntas abertas, manter diálogos sucessivos e até utilizar a assistente para desenvolver ideias.
A inteligência artificial poderá ainda recorrer a informação existente no email, fotografias, calendário e outras áreas do dispositivo para responder a perguntas tendo em conta o contexto pessoal do utilizador.
Isto permite à Siri passar de uma assistente que responde a comandos específicos para uma ferramenta capaz de executar determinadas tarefas. Entre os exemplos apresentados pela Apple está a possibilidade de editar mensagens de texto.
A Siri poderá também utilizar a câmara do dispositivo para “ver” aquilo que está à frente do utilizador. A Apple deu exemplos como avaliar o valor nutricional de uma refeição, dividir uma conta entre amigos ou obter informação sobre objetos do mundo real.
Na escrita, a nova Siri poderá gerar rascunhos de mensagens, fazer revisão de textos e adaptar-se ao estilo de escrita, pontuação e tom habitual de cada utilizador.
A Apple resume a sua abordagem à privacidade com uma frase particularmente significativa: “O Apple Intelligence tem conhecimento da sua informação pessoal sem recolher a sua informação pessoal.”
Segundo a empresa, o sistema poderá recorrer a modelos de maior dimensão executados em servidores sem que os dados pessoais do utilizador fiquem acessíveis à Apple ou a qualquer outra entidade.
Apple continua a tentar recuperar terreno na inteligência artificial
A evolução da Siri surge num momento em que a Apple procura recuperar terreno na corrida à inteligência artificial, numa área em que empresas como a OpenAI, com o ChatGPT, e a Anthropic, com o Claude, têm assumido uma posição de destaque.
A Apple tem procurado integrar capacidades de IA diretamente nos seus dispositivos e afirma que os novos chips A20 Pro vão ajudar a executar e otimizar estas funcionalidades em iPhones, Apple Watches e iPads.
A estratégia acompanha uma transformação mais ampla dos assistentes de IA. Em vez de se limitarem a responder a perguntas, estes sistemas estão a tornar-se capazes de executar tarefas com várias etapas e de trabalhar diretamente dentro de outras aplicações.
É precisamente esse caminho que a Apple diz querer seguir com a nova Siri.
O anúncio surge, contudo, num momento particularmente intenso no debate sobre os riscos da inteligência artificial. Na terça-feira à noite, Evan Hubinger, responsável pela área de investigação de alinhamento da Anthropic e antigo funcionário da OpenAI e da própria Anthropic, afirmou acreditar pessoalmente que existe uma probabilidade superior a 10% de a IA poder “matar todos os seres humanos” nos próximos dez anos.
O alerta contrasta com a visão apresentada pela Apple, que procura tornar a IA uma ferramenta cada vez mais integrada no quotidiano — capaz de ouvir, compreender, resumir, escrever, analisar imagens e executar tarefas em nome do utilizador.
A corrida pela inteligência artificial tem também uma dimensão financeira. A Apple tem investido significativamente menos nesta área do que alguns dos seus principais concorrentes. Em 2025, a empresa terá realizado cerca de $12 mil milhões (€10,3 mil milhões) em despesas de capital relacionadas com IA, enquanto Google, Amazon e Meta, em conjunto, destinaram centenas de milhares de milhões de dólares à tecnologia nesse mesmo ano.
A nova Siri representa, assim, uma das principais apostas da Apple para reduzir essa diferença, levando a inteligência artificial para dentro de uma ferramenta que já está instalada em centenas de milhões de dispositivos.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





