Carolina Correia: Um novo capítulo depois de uma época histórica

O futebol feminino português já viveu várias épocas. Já teve momentos em que eram as chamadas “equipas pequenas” que o mantinham vivo, outros em que começava a atrair as atenções de clubes com possibilidades financeiras maiores e hoje conta com os nomes mais sonantes do futebol português. Mas entre todos estes momentos houve sempre uma…
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Depois de um percurso histórico ao serviço do Torreense, Carolina Correia abraça um novo desafio em Itália. Na sua primeira entrevista como jogadora da Fiorentina, fala sobre o que conquistou em Portugal, a ambição em Florença e o sonho de jogar o Mundial no Brasil.
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O futebol feminino português já viveu várias épocas. Já teve momentos em que eram as chamadas “equipas pequenas” que o mantinham vivo, outros em que começava a atrair as atenções de clubes com possibilidades financeiras maiores e hoje conta com os nomes mais sonantes do futebol português. Mas entre todos estes momentos houve sempre uma constante: a capacidade de alguns clubes de pegar em baixos investimentos, menores estruturas e menos visibilidade e transformar tudo isso em resultados históricos.

Tem sido este o percurso do Torreense nas últimas épocas. Um clube que conseguiu vencer a Taça de Portugal em 2025 e garantir a Supertaça, a Taça da Liga e o apuramento para a ronda de qualificação da Liga dos Campeões durante a época 2025/26.

Carolina Correia fez parte de toda esta história e agora decidiu que estava na hora de arriscar e viver a sua primeira experiência a nível internacional, ao assinar pela Fiorentina. Até porque há momentos em que o risco compensa e Carolina sabe muito bem disso.

Que objetivos é que vocês definiram enquanto equipa [Torreense] para a época 2025/26?
Acabou um bocadinho por tentarmos fazer mais e melhor relativamente à época anterior. Tínhamos o objetivo, sim, de tentar chegar às finais das taças, não foi possível em todas, mas era esse um dos nossos objetivos. Depois, à medida que o tempo foi passando, começámos a ver que se calhar era possível ambicionar o terceiro lugar e ambicionar também chegar às competições europeias. Mas diria que era fazer melhor que o ano anterior e que continuássemos a crescer enquanto equipa.

Como é que tu descreves o ambiente no balneário ao longo da época?
No Torreense o balneário é muito unido, já nos conhecemos todas há bastante tempo, portanto diria que a união é aquilo que descreve a equipa. Claro que com as vitórias e com os bons resultados o ambiente acaba por ser mais tranquilo, com muita alegria. Mas acima de tudo é a união que caracteriza esta equipa e que a leva até estes patamares.

Os principais momentos desta história recente do Torreense – a Taça de Portugal na época anterior, depois Supertaça, Taça da Liga, garantir o apuramento para a ronda de qualificação da Liga dos Campeões – como é que tu olhas para cada um destes momentos?
Diria que se calhar vivi um dos melhores dias da minha vida com o Torreense quando ganhámos a Taça de Portugal, era um sonho ganhar esta taça, tê-lo feito com o Torreense foi a cereja no topo do bolo. Era um objetivo que queríamos muito alcançar, falando aqui na Taça de Portugal, e foi o culminar de uma época muito desgastante, de um objetivo que sabíamos que tínhamos de deixar para a última, porque era o último jogo da época. Via muitos jogos no Jamor, subir aquelas escadas era um grande objetivo meu e de muita gente da equipa. Os outros troféus foram diferentes, claro que foram todos muito especiais, mas diria que se calhar das três a Taça de Portugal foi aquela que marcou mais.

E o momento mais recente, este apuramento para a ronda de qualificação da Liga dos Campeões?
Também foi um objetivo que todas ambicionávamos, à medida que os jogos foram passando sonhámos com esse apuramento. Elevar o Torreense, um clube não muito conhecido fora de Portugal, ao mais alto nível é algo que também desejávamos muito. Claro que qualquer jogadora ambiciona jogar um apuramento para a Champions e foi um momento único. Esta conquista é um bocadinho a época toda em si, aquilo que foram os jogos, a nossa capacidade de superação, não foi uma época fácil de acabar em terceiro lugar acho que, sem dúvida, deu-nos uma motivação ainda maior.

Atribuís este sucesso a que fatores? O que é que esta equipa tem que fez com que este crescimento fosse possível?
Acredito muito que seja o trabalho diário, a ambição que todas temos em querer mais, a nossa capacidade de superação porque, como disse, não foi uma época fácil. Começámos logo a época com a notícia que não iríamos jogar no nosso estádio e isso acabou por mexer um bocadinho connosco, mas nós temos uma grande capacidade de superação e conseguimos ultrapassar essa adversidade da melhor forma. Mas diria que é um bocadinho a junção desses fatores.

Depois de todas estas conquistas sentes que vocês estão a ter o reconhecimento que esperavas?
Sim, acredito que sim. Cheguei cá há três anos e olhando para trás o Torreense cresceu imenso. Também com a vinda não só da equipa técnica, mas novos diretores, novas pessoas que entraram aqui no futebol feminino, fizeram com que o Torreense crescesse no futebol feminino. Agora estamos a colher um bocadinho os frutos daquilo que foi um trabalho que já começou há algum tempo.

Esta descentralização a que o Torreense está a obrigar diz o quê sobre o futebol feminino em Portugal?
Que o futebol feminino em Portugal está a crescer. Claro que com o passar do tempo os clubes querem cada vez mais apostar no futebol feminino e no Torreense foi um bocadinho isso. Claro que não temos as infraestruturas dos grandes, as mesmas capacidades dos grandes, mas passa por tirar o melhor proveito daquilo que temos. É um investimento que não só o Torreense como o Valadares têm vindo a fazer, não foi em vão que foram as duas equipas finalistas da Taça da Liga, mas diria que sim, é um investimento que está a ser feito e acho que está aos olhos de todos.

“Todos os jogos vão ser muito competitivos e difíceis de ganhar”

Terminada a época, optas por uma mudança. O que é que te levou a escolher a Fiorentina?
Acima de tudo, a vontade de continuar a crescer enquanto atleta e de experimentar uma liga ainda mais competitiva. Aliado a isso, o facto de ser um clube enorme, com excelentes condições de trabalho – para mim, das melhores que já encontrei – e com uma mentalidade muito forte e uma enorme vontade de ganhar.

O que é que te atrai mais na liga italiana?
Ainda não começámos o campeonato, mas sei que é uma liga que tem crescido bastante nos últimos anos. Existe muita qualidade e sinto que a intensidade dos jogos é diferente. Todos os jogos vão ser muito competitivos e difíceis de ganhar, o que nos obriga a estar sempre no nosso melhor nível e muito focadas em todos os momentos.

Como é que foi a fase de adaptação, não só a um novo clube, mas também uma nova cidade?
É a minha primeira experiência fora de Portugal e também a primeira vez que estou longe da família, por isso é uma adaptação diferente. As primeiras semanas foram um pouco mais exigentes, principalmente por estar a tentar absorver o máximo de informação possível sobre a forma de jogar e, ao mesmo tempo, conhecer as minhas colegas, tanto dentro como fora de campo. É um processo que leva o seu tempo, mas sinto que, com o passar das semanas, estou cada vez mais confortável e confiante. A cidade também é incrível e muito acolhedora, o que ajuda bastante nesta adaptação.

O que é que te surpreendeu mais no clube?
Destacaria principalmente a mentalidade das jogadoras e da equipa técnica. São todas muito competitivas, com muita qualidade e rigorosas no bom sentido, o que faz com que quem esteja à nossa volta queira também elevar o seu nível. Aqui existe uma grande atenção ao detalhe, e considero que isso é muito positivo, tanto para crescermos enquanto equipa como individualmente.

Como é que te sentiste no primeiro treino com a equipa?
Senti desde logo que a intensidade era maior. No início ainda estava um pouco perdida relativamente aos nomes das minhas colegas, o que dificultou ligeiramente, mas são coisas normais. Somos uma equipa que gosta de ter bola e de assumir o jogo, e identifico-me bastante com essa forma de jogar.

Em que momento percebeste que fizeste a escolha certa?
Quando tomamos uma decisão é porque acreditamos que estamos a fazer a escolha certa. Depois, só o tempo o dirá. Neste momento, sinto-me bem, feliz e cada vez mais integrada, por isso espero e acredito que tenha tomado a decisão certa.

Qual foi o principal objetivo que definiste para ti e que definiram como equipa?
O meu principal objetivo é continuar a crescer enquanto jogadora e, acima de tudo, jogar e aproveitar cada oportunidade para evoluir. A nível coletivo, queremos fazer melhor do que na época anterior e continuar a crescer enquanto equipa, tanto dentro como fora de campo.

“Queremos muito estar no Mundial”

Voltando atrás na tua carreira: tu estavas no Benfica antes do Torreense, o que é que te levou a optar por esta mudança que agora ninguém questiona mas que se calhar na altura houve quem questionasse?
Na altura no Benfica eu tinha acabado de chegar à equipa A. Ou seja, tive dois anos na equipa A, no segundo ano acabei por não estar a ter tantos minutos, estava numa altura em que era um bocadinho mais jovem, precisava de ter mais minutos. Há coisas que ganhamos com tempo de jogo e eu precisava disso. Acabou por surgir a oportunidade de ser emprestada neste caso ao Torreense. Olhando para trás, e olhando no momento, digo que foi a melhor escolha possível. O Benfica abriu-me as portas também para esse empréstimo, aproveitei a oportunidade e não podia estar mais satisfeita.

Percebeste logo que essa era a melhor decisão?
No momento achei logo que fosse a decisão certa, mas agora tenho 100% de certeza que foi a melhor escolha. Quando somos jovens, às vezes queremos estar num clube grande mesmo não jogando, mas outras vezes temos de arriscar, procurar mais, procurar esse tempo de jogo. Não há mal nenhum em arriscar. Acabou que correu bem para mim e acredito que vai correr bem com muitas dessas jogadoras que também tenham essa oportunidade. Foi aproveitar a oportunidade que o Benfica me deu de ser emprestada e a do Torreense por me receber e por também me dar a oportunidade de crescer e de chegar onde estou.

Tens vindo também a ganhar espaço na seleção, como é que olhas para estes últimos tempos ao serviço de Portugal?
Têm sido tempos muito bons, acho que ainda não caí em mim. Este último ano acabou por passar muito rápido, nem há um ano foi a minha primeira convocatória, já tenho tido minutos, tenho aproveitado as oportunidades que me têm sido dadas. Estou muito feliz, estou a ganhar o meu espaço, as coisas levam tempo, portanto estou a integrar-me ainda na equipa, a crescer também com as minhas colegas, aproveitar as oportunidades que me são dadas e a ser feliz acima de tudo.

E em que momento é que está a equipa?
Estamos num momento bom, queremos garantir a qualificação para o Campeonato do Mundo. Claro que nem sempre os resultados são favoráveis, mas é tirar o melhor disso. Agora estamos focadas na qualificação, estamos numa boa fase, ainda temos uns jogos pela frente. Queremos ganhar, passar em primeiro lugar do grupo. É continuar a trabalhar porque queremos muito estar nesse Mundial no Brasil. É jogo a jogo e tenho a certeza que vai correr bem.

E a nível pessoal, quando tu pensas nesse Campeonato do Mundo no Brasil o que é que te passa pela cabeça?
Tantas coisas. É um sonho. Quero muito lá estar, mas primeiro é focar-me um bocadinho no presente porque ainda faltam muitos jogos, é uma longa caminhada até lá chegar. Claro que sonhar todos sonham e eu não sou exceção, ainda por cima no Brasil que é o país do futebol, a energia é toda futebol. Primeiro é um país incrível para fazer o Mundial e depois é um sonho estar no Mundial, é juntar os dois em um e espero que Portugal lá esteja a participar.

Quais é que são as principais barreiras que ainda ias encontrando no campeonato em Portugal?
Cá em Portugal eu acredito que o futebol ainda esteja a crescer. Já cresceu muito, eu sou de uma geração diferente, se calhar as jogadoras como a Ana Borges, Carole Costa, foram um bocadinho também as pioneiras que trouxeram o nível a este patamar. Eu acabei por colher um bocadinho os frutos. Claro que ainda estamos a crescer bastante, mas acredito que ainda tenhamos muito para crescer, tanto a nível de transmissões, a nível de infraestruturas, há muitos clubes que ainda treinam em sintético. Acho que ainda há muitos clubes que não têm a capacidade de ter as melhores condições. Acredito que isto também seja um dos fatores que possam vir a ser melhorados para o futebol continuar a crescer ainda mais cá em Portugal e para que muitas jogadoras fora de Portugal queiram vir para cá.

Mas diria as infraestruturas, a transmissão dos jogos, a divulgação dos jogos.

Quando mencionas o crescimento, sentes que é um crescimento que tem sido contínuo? Porque alguns dos problemas são os mesmos que eram mencionados há alguns anos.
Acredito que se calhar este crescimento já tenha sido um bocadinho mais rápido, agora poderá estar a ser feito mais devagar e está tudo certo, cada coisa tem o seu tempo. Acho que o fator infraestruturas acaba por ser aqui um bocadinho um entrave, em muitos clubes as jogadoras ainda treinam em sintético. Nem todos os clubes têm a capacidade de ter uma estrutura como se calhar o Benfica e o Sporting têm, são clubes diferentes, com capacidades monetárias diferentes, mas acredito que é necessário também que esses clubes cresçam para que as jogadoras consigam continuar a crescer de forma contínua.

E em relação ao facto de Portugal ainda não ter uma liga profissional?
Acho que temos de acelerar um bocadinho essa questão. O futebol feminino está a crescer muito depressa lá fora e Portugal também tem de crescer muito nesse sentido de profissionalizarmos a liga. Portugal está a crescer ao seu ritmo, mas é importante que o faça nestes pontos.

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