A Inteligência Artificial está a deixar de ser apenas uma ferramenta de produtividade para transformar a própria natureza do trabalho. Segundo o estudo AI at Work: Strategy Matters More Than Tools, da Boston Consulting Group (BCG), 47% dos profissionais afirmam passar atualmente mais tempo a gerir e orientar a IA do que a executar as suas tarefas.
O estudo, que inquiriu 11.749 profissionais em 14 mercados e em diferentes setores de atividade (com todos com funções de líderes, gestores ou colaboradores de primeira linha), mostra que 72% dos inquiridos consideram que a IA já alterou significativamente as competências exigidas pelas suas funções. Ao mesmo tempo, 60% dizem que aumentou o nível do que é considerado “bom o suficiente” no trabalho.

A utilização da tecnologia está também associada a um aparente paradoxo. 67% dos utilizadores regulares de IA dizem sentir maior satisfação profissional, mas 41% afirmam ter registado um aumento da carga cognitiva.

Segundo a BCG, nos primeiros meses essa maior exigência pode ser encarada como estimulante, mas, ao fim de um ano, a clareza estratégica e a qualidade da liderança tornam-se mais determinantes para manter a motivação.
IA chega a mais trabalhadores
Segundo esta análise, a adoção da tecnologia está a acelerar sobretudo entre os colaboradores sem responsabilidades de gestão: 74% destes profissionais são agora utilizadores regulares de IA, mais 23 pontos percentuais do que em 2025.

O aumento da utilização traduz-se também em ganhos de tempo: 42% dos utilizadores operacionais afirmam poupar pelo menos um dia de trabalho por semana graças à IA. Contudo, 66% dizem receber pouca ou nenhuma orientação sobre como utilizar esse tempo adicional e mais de metade não o redireciona para atividades de carácter estratégico.
Para a BCG, este é um dos principais desafios das organizações: a produtividade obtida individualmente não se transforma necessariamente em valor para o negócio: “O desafio está em redefinir com clareza onde reside o contributo humano de maior valor. É aí que a liderança se torna decisiva”, afirma Eduardo Bicacro, Managing Director e Partner da BCG em Lisboa.
Agentes de IA avançam
O estudo identifica ainda uma rápida evolução dos agentes de IA, que já estão integrados nos fluxos de trabalho de 30% dos profissionais, mais do dobro dos 13% registados em 2025.
A expectativa é ainda maior para os próximos anos: 61% dos inquiridos acreditam que, dentro de três anos, os agentes poderão executar pelo menos metade do seu trabalho. Porém, 52% admitem ainda ter conhecimento limitado sobre o funcionamento destes sistemas e metade das organizações não dispõe de orientações claras para gerir equipas compostas por pessoas e IA.
A conclusão da BCG é que a estratégia pesa mais do que o acesso às ferramentas. Empresas com uma estratégia clara, mesmo quando o acesso às ferramentas é limitado, apresentam mais 25 pontos percentuais de probabilidade de reportar impacto mensurável no negócio. Já o acesso alargado a ferramentas sem uma estratégia definida representa um ganho de apenas cerca de cinco pontos percentuais.
As empresas que estão a redesenhar processos de ponta a ponta e a criar novos modelos de negócio apresentam, por sua vez, mais 24 pontos percentuais de probabilidade de observar melhorias mensuráveis no negócio e mais 20 pontos percentuais de probabilidade de os colaboradores reportarem maior satisfação profissional.
“A mensagem é clara: o entusiasmo inicial com a IA pode desaparecer rapidamente quando não existe uma direção clara, prioridades bem definidas e uma visão consistente de transformação”, acrescenta Eduardo Bicacro.
Para a consultora, a próxima fase da IA no trabalho dependerá menos da quantidade de ferramentas disponíveis e mais da capacidade das organizações para redesenhar funções e processos, preparar as pessoas e liderar a transformação.





