Esta reportagem integra a edição de agosto/setembro de 2026 da Forbes Magazine dos EUA.
Menos de seis semanas depois de as forças russas terem lançado a invasão da Ucrânia, a 4 de abril de 2022, agentes da Guardia Civil espanhola, do FBI e do Department of Homeland Security embarcaram no Tango, um superiate de 255 pés (cerca de 78 metros), atracado no porto de Palma de Maiorca.
A embarcação, alegadamente pertencente ao bilionário russo sancionado Viktor Vekselberg (fortuna estimada em $9 mil milhões/€7,7 mil milhões), segundo o Governo dos Estados Unidos, foi apreendida ao abrigo de um mandado norte-americano que alegava fraude bancária, branqueamento de capitais e violação de sanções. Avaliado em $90 milhões (€77 milhões), o Tango tornou-se o primeiro grande símbolo da campanha ocidental para punir os oligarcas russos que, nas palavras das autoridades norte-americanas, “apoiaram a tirania em troca de ganhos financeiros”.
“Hoje marca a primeira apreensão, pela nossa task force, de um ativo pertencente a um indivíduo sancionado com fortes ligações ao regime russo”, afirmou, na altura, o então procurador-geral dos Estados Unidos, Merrick Garland. “Não será a última.”
Semanas depois, Garland reforçou a promessa, garantindo que o Departamento de Justiça recorreria a todos os instrumentos disponíveis para apreender bens e canalizar as receitas das vendas diretamente para a Ucrânia. Mais de quatro anos depois, essas promessas transformaram-se num enorme problema.
O Tango permanece praticamente no mesmo local onde foi apreendido, ocupando um dispendioso lugar de amarração premium em Palma de Maiorca. Washington continua sem conseguir vendê-lo e nem um único cêntimo chegou a Kiev. Pelo contrário, os contribuintes norte-americanos já desembolsaram cerca de $14 milhões (€12 milhões) para suportar uma tripulação mínima, seguros, combustível e manutenção.
Sem estas despesas – e sem manter motores, sistemas elétricos e equipamentos em funcionamento – um superiate começa a degradar-se quase de imediato. Um desastre financeiro que, no setor privado, provavelmente custaria o emprego aos responsáveis, mas que, na esfera pública, parece ter sido tratado como mais um custo inevitável.
“Consigo vê-lo da janela do meu escritório. Está ali há anos, ao sol”, diz Sam Tucker, corretor da Moravia Yachting, em Palma de Maiorca, que afirma ver regularmente uma equipa reduzida de cerca de dez pessoas a bordo. “A pintura está envelhecida, o casco deve estar completamente sujo. Está praticamente apenas dentro dos limites legais para continuar a flutuar.”
Miguel Ángel Serra, sócio fundador da sociedade de advogados Legalley, sediada em Palma, considera que os governos estão a descobrir da forma mais difícil quanto custa manter um ativo parado: “Os superiate que não operam custam muito dinheiro”, afirma. “Mesmo sem sair do lugar, são extraordinariamente caros.”
Uma campanha milionária que nunca produziu os resultados prometidos
Nos meses caóticos que se seguiram à invasão da Ucrânia, 11 governos ocidentais congelaram ou detiveram pelo menos 20 superiates ligados à Rússia, avaliados, na época, em aproximadamente $4,3 mil milhões (€3,7 mil milhões). Foi uma operação com enorme impacto mediático. A mensagem parecia simples: apreender os bens dos oligarcas, vendê-los e utilizar o dinheiro para ajudar a reconstruir a Ucrânia.
Nada disso aconteceu. Em vez disso, a iniciativa transformou-se num pesadelo burocrático. Do ponto de vista jurídico, congelar um iate não é o mesmo que confiscá-lo. Apenas o confisco permite a venda do ativo e a transferência da propriedade para o Estado. Ao fim de quatro anos, apenas quatro dessas embarcações foram efetivamente confiscadas. Três acabaram vendidas com descontos significativos. Segundo estimativas da Forbes, apenas dois governos – os dos Estados Unidos e de Antígua e Barbuda – conseguiram arrecadar receitas líquidas após descontarem os custos associados. Nenhuma dessas verbas parece ter sido encaminhada para a Ucrânia.

Entretanto, dois dos superiates acabaram discretamente libertados e devolvidos aos respetivos proprietários. Os contribuintes ocidentais continuam, porém, a suportar as despesas de manutenção de 15 embarcações ainda retidas em portos espalhados pela Europa.
Para apurar o verdadeiro custo desta estratégia, a Forbes apresentou pedidos de acesso à informação junto de entidades governamentais em 11 países, analisou processos judiciais e falou com advogados, corretores de iates e estaleiros navais. Várias agências norte-americanas não responderam aos pedidos, mesmo depois de mais de um mês. Outros países, como Itália e Alemanha, recusaram fornecer informação, invocando cláusulas de confidencialidade ou alegando que tal violaria segredos de Estado.
Apesar desse secretismo, a Forbes confirmou que os governos já gastaram mais de $100 milhões (€86 milhões) apenas na manutenção de cinco superiates. Para os restantes, a Forbes trabalhou em conjunto com a empresa especializada Phronesis Superyacht Intelligence & Insight para produzir estimativas independentes. No total, esta operação de congelamento de embarcações já custou aproximadamente $390 milhões (€335 milhões) ao longo de quatro anos. Os contribuintes norte-americanos suportaram pelo menos $50 milhões (€43 milhões) desse montante, representando a segunda maior parcela da fatura.
Itália lidera a conta
O país que mais gastou foi a Itália. Até agora, desembolsou quase $100 milhões (€86 milhões) para manter os quatro superiates que congelou. Entre eles encontra-se o Scheherazade, um gigante de 465 pés (cerca de 142 metros), alegadamente pertencente ao próprio Vladimir Putin, segundo investigações da Fundação Anticorrupção criada pelo falecido líder da oposição russa Alexei Navalny.
Quando foi congelado, o iate estava avaliado em $510 milhões (€438 milhões). Permanece desde maio de 2022 no porto italiano de Marina di Carrara e já custou aproximadamente $15 milhões (€13 milhões) em despesas de manutenção, valor que continua a aumentar, de acordo com as contas da Italian Sea Group, proprietária do estaleiro onde o navio permanece.
Nas cidades obrigadas a acolher estas embarcações, a situação passou de incómodo a motivo de irritação. Em Trieste, no nordeste de Itália, os habitantes convivem há quatro anos com o Sailing Yacht A, um veleiro de 468 pés (cerca de 143 metros), desenhado por Philippe Starck e frequentemente descrito como “o iate mais feio do mundo”. Avaliado em $578 milhões (€496 milhões) quando foi congelado, continua imóvel, bloqueando parte da vista sobre o mar Adriático.
“É um desperdício de dinheiro público. É uma vergonha”, declarou em 2023 o presidente da câmara de Trieste, Roberto Dipiazza, ao jornal Corriere della Sera. Recusou, contudo, comentar o assunto à Forbes.
Do outro lado do país encontra-se o Lady M, com 214 pés (cerca de 65 metros), alegadamente pertencente ao magnata russo do aço Alexey Mordashov, segundo o Governo italiano. Parado há mais de 200 semanas no porto de Imperia, custa cerca de $700 por dia (€600) apenas em eletricidade e água. A isso somam-se $15 mil por mês (€13 mil) em taxas de amarração e mais $57 mil por ano (€49 mil) em manutenção básica.
“No final de cada mês emitimos as faturas e recebemos o pagamento. O iate está muito bem conservado”, afirma Matteo Bonjean, vice-diretor do porto Marina di Imperia. É natural que assim seja: o Estado italiano já recebeu faturas superiores a $2 milhões (€1,7 milhões) apenas para manter a embarcação.
Confiscar é muito mais difícil do que congelar
Na prática, confiscar um bem é muito mais complexo do que simplesmente congelá-lo. Congelar um ativo impede a sua utilização ou venda. Já o confisco implica uma mudança efetiva de propriedade. Para que isso aconteça, as autoridades têm de provar que a pessoa sancionada cometeu um crime e obter uma decisão judicial que permita apreender os seus bens.
Dos $58 mil milhões (€50 mil milhões) em ativos pertencentes a oligarcas russos que foram bloqueados – incluindo iates, imóveis, aviões, empresas e contas bancárias – apenas cerca de $3 mil milhões (€2,6 mil milhões), ou cerca de 5%, foram efetivamente confiscados. No caso específico dos superiates, a percentagem é ainda menor: das 20 embarcações detidas pelos governos, apenas quatro, avaliadas em aproximadamente $530 milhões (€455 milhões), foram formalmente confiscadas.
“Não creio que as autoridades tivessem a mínima ideia de quanto custa simplesmente manter estas embarcações paradas.” – Benjamin Maltby, advogado especializado em superiates.
Mesmo depois de obtido um mandado de apreensão, as autoridades têm ainda de atravessar todo o processo de perda alargada de bens (“civil forfeiture”), para que o ativo passe oficialmente para o Estado e possa ser vendido. É precisamente essa etapa que os Estados Unidos continuam sem concluir relativamente ao Tango.
“Uma das prioridades era avançar com apreensões e confiscações, não apenas para impedir o acesso aos ativos, mas para transferir definitivamente a propriedade para os Estados Unidos, permitindo que alguns desses bens, por modestos que fossem, pudessem ser utilizados em benefício da Ucrânia”, explica Andrew Adams, sócio da sociedade de advogados Steptoe, em Washington, que liderou a task force KleptoCapture do Departamento de Justiça entre 2022 e 2023.
Em fevereiro de 2025, o Presidente Donald Trump extinguiu essa unidade, deixando muitos destes ativos ainda num limbo jurídico. O Departamento de Justiça não respondeu aos vários pedidos de comentário enviados pela Forbes.
Na União Europeia, a situação é ainda mais complicada, uma vez que muitos países simplesmente não dispõem de um enquadramento legal suficientemente claro para proceder ao confisco destes bens. “Nos Estados Unidos existe mais experiência nesta matéria, muito por causa da guerra contra o narcotráfico”, explica Benjamin Maltby. “Na Europa, a legislação não foi devidamente preparada desde o início.” E acrescenta: “Não creio que as autoridades tivessem a mínima ideia de quanto custa simplesmente manter estas embarcações paradas.”
Há iates onde já nem a tripulação recebe
Alguns governos tentaram responsabilizar os proprietários sancionados pelos custos de manutenção dos iates enquanto permanecem detidos. Na prática, a estratégia revelou-se pouco eficaz. Desde logo porque nem sempre é claro quem é o verdadeiro proprietário da embarcação. E, mesmo quando essa informação existe, muitos simplesmente deixam de pagar. É o caso do Luminosity, um superiate de 353 pés (cerca de 108 metros), retido no Montenegro desde março de 2022, altura em que Andrei Guryev Jr. – associado à embarcação e filho do magnata dos fertilizantes Andrei Guryev — foi alvo de sanções da União Europeia. A tripulação foi dispensada pouco depois e continua, desde então, a tentar recuperar os salários em atraso.
A Burgess Crew Services, empresa responsável pela contratação da tripulação em nome do proprietário, conseguiu autorização para transferir verbas pertencentes ao dono da embarcação em outubro de 2023. Quase três anos depois, porém, o dinheiro continua bloqueado porque um banco intermediário congelou os fundos e nunca autorizou a respetiva libertação. “Existe uma equipa nomeada pelo Governo do Montenegro que vai ao barco de vez em quando, mas ninguém recebe salário”, conta Russell Crump, corretor de iates sediado no Mónaco, que representa um potencial comprador do Luminosity que diz ainda que “acabaram por retirar a televisão, a mesa da sala de jantar e vários equipamentos do barco.”
É difícil imaginar que alguém esteja disposto a pagar hoje o valor de mercado original. Descrito no passado como um “palácio flutuante de vidro”, o Luminosity está agora a degradar-se na água, com cracas a acumularem-se no casco e os pavimentos em teca a deteriorarem-se sob o sol “Qualquer embarcação deixada no ambiente marinho sem tripulação degrada-se rapidamente”, explica Robert Dolling, cofundador e CEO da corretora Verpeka Dolling, sediada no Mónaco. Segundo Dolling, o Luminosity já perdeu metade do valor que tinha antes da guerra, quando era avaliado em $275 milhões (€236 milhões). “Se os motores, os geradores e todos os sistemas deixam de funcionar regularmente, tudo começa a degradar-se.”
Quem é afinal o verdadeiro dono?
No papel, o proprietário legal do Luminosity é uma empresa registada na ilha de Guernsey, um conhecido paraíso fiscal. Este tipo de estrutura é comum entre grandes fortunas, que recorrem frequentemente a cadeias complexas de sociedades e trusts para deter os seus ativos. Essa empresa sediada em Guernsey enfrenta atualmente processos judiciais movidos por fornecedores náuticos e pelo estaleiro onde o iate permanece retido, devido a anos de contas por pagar. Na Alemanha, foi o próprio fabricante de superiate Lürssen quem acabou envolvido neste conflito.
Cansado de suportar milhões de dólares em custos para manter o megaiate Dilbar, com 511 pés (cerca de 156 metros) e avaliado em $600 milhões (€515 milhões), o estaleiro processou no ano passado o Gabinete Federal Alemão para os Assuntos Económicos e Controlo das Exportações. A embarcação foi construída pela Lürssen em 2016 e, por mero azar, encontrava-se novamente no estaleiro para obras de modernização quando a guerra começou. Nunca mais saiu de lá. Durante anos, o Dilbar foi associado ao magnata dos metais Alisher Usmanov – o nome da embarcação é, aliás, o da sua mãe. Contudo, Usmanov e os seus advogados têm insistido que ele nunca foi o proprietário legal. Em determinado momento, a beneficiária do trust que detinha o iate era a irmã do empresário. Ela própria chegou a integrar a lista de sanções da União Europeia, mas foi retirada em 2025. Foi precisamente nessa altura que a Lürssen avançou para tribunal, defendendo que o Estado alemão deveria reembolsar os custos de manutenção, uma vez que a proprietária já não estava sujeita a sanções. Em abril deste ano, um tribunal de Frankfurt deu razão ao estaleiro.
Quando os leilões avançaram, também correram mal
Mesmo nos casos em que os governos conseguiram autorização para vender os superiates apreendidos, o processo revelou-se tudo menos exemplar. Até 2022, o Amadea – um iate de 348 pés (cerca de 106 metros), com seis conveses, heliporto, piscina infinita de dez metros, elevadores dourados e um piano de cauda Pleyel pintado à mão – pertencia alegadamente, segundo o Governo norte-americano, ao magnata russo do ouro Suleiman Kerimov, membro da câmara alta do Parlamento russo e alvo de sanções dos Estados Unidos desde 2018.
Pouco depois da invasão da Ucrânia, o Amadea iniciou uma viagem de 18 dias entre o México e as Fiji. Em maio de 2022, as autoridades fijianas executaram um mandado de apreensão em nome do FBI, que transferiu a embarcação para San Diego um mês mais tarde. Só passados mais 16 meses, em outubro de 2023, é que o Departamento de Justiça norte-americano apresentou a ação judicial destinada a formalizar o confisco do iate.
Seguiu-se uma batalha legal de dois anos entre o Governo dos Estados Unidos e outro oligarca russo, Eduard Khudainatov, que alegava ser o verdadeiro proprietário da embarcação. Khudainatov – que não aparenta ter qualquer ligação a Kerimov – tentou impedir o confisco, enquanto o Governo norte-americano defendia que ele era apenas um “proprietário de fachada”. Durante todo esse período, os contribuintes norte-americanos gastaram $36 milhões (€31 milhões) na manutenção do Amadea. No final, o Estado venceu o processo e vendeu a embarcação em leilão, em setembro do ano passado. Mas houve um problema: o iate foi vendido com um desconto de 37% face ao valor estimado antes da guerra, de $300 milhões (€258 milhões).
Depois de descontadas todas as despesas, Washington arrecadou aproximadamente $150 milhões (€129 milhões). O U.S. Marshals Service, responsável pela gestão da embarcação enquanto esteve sob custódia federal, recusou divulgar uma contabilidade detalhada, limitando-se a afirmar que o dinheiro seria utilizado para “compensação de vítimas, despesas de programas e outras despesas da agência”. Nada indica que alguma parte dessas receitas tenha sido destinada à Ucrânia.
O comprador foi um jovem bilionário do Dubai
O vencedor do leilão do Amadea foi Abbas Sajwani, empresário imobiliário do Dubai de apenas 26 anos e filho de Hussain Sajwani, o multimilionário promotor imobiliário frequentemente apelidado de “Donald do Dubai” e conhecido pela proximidade a Donald Trump. Abbas parece estar a desfrutar plenamente da nova aquisição. Dois dias antes do Grande Prémio de Fórmula 1 do Mónaco, convidou a Forbes para visitar o seu mais recente brinquedo de luxo. “Foram várias as razões que me atraíram: o layout, o design dos interiores, a marca, a qualidade da construção e a forma como foi mantido”, explicou, sentado num sofá de pele creme no átrio revestido a madeira. Pela janela viam-se dezenas de outros superiate a balançar nas águas azuis do Mediterrâneo. Entre eles estavam o Axioma e o Alfa Nero, ambos também apreendidos a oligarcas russos e posteriormente revendidos.
O Axioma e o Alfa Nero
O Axioma, com 236 pés (cerca de 72 metros), foi detido pelas autoridades de Gibraltar depois de Dmitry Pumpyansky, magnata russo da indústria dos tubos, ter sido sancionado pela União Europeia em março de 2022. Essa decisão colocou automaticamente em incumprimento um empréstimo de $21 milhões (€18 milhões) concedido pelo JPMorgan e garantido precisamente pelo iate. Cinco meses depois, o banco promoveu um leilão. A embarcação foi vendida por $37,5 milhões (€32 milhões) aos industriais turcos Ali Riza Yildirim e Robert Yuksel Yildirim, abaixo da avaliação anterior de $42 milhões (€36 milhões).

Já o Alfa Nero, com 269 pés (cerca de 82 metros), construído em 2007 pelo estaleiro neerlandês Oceanco e conhecido por ter sido o primeiro superiate com uma piscina que se transforma em heliporto através de um simples botão, chegou às águas de Antígua e Barbuda em março de 2022. Cinco meses depois, os Estados Unidos classificaram oficialmente a embarcação como propriedade bloqueada do magnata russo Andrei Guryev, sancionado no mesmo dia. O Tribunal Superior de Antígua autorizou a apreensão. As autoridades locais, em conjunto com o FBI, assumiram o controlo do iate.
Em março de 2023 surgiu um novo problema. O sistema de tratamento de águas residuais avariou e a embarcação começou a descarregar esgotos não tratados diretamente no porto. Nesse mesmo mês, o Governo de Antígua aprovou uma lei que permitia vender qualquer embarcação considerada “uma ameaça iminente para o porto e para outras embarcações”. O Alfa Nero foi rapidamente classificado como um perigo e colocado à venda, sob o argumento de que tinha sido abandonado pelo proprietário. Os advogados de Yulia Guryeva-Motlokhov, filha de Andrei Guryev, que afirmava ser a verdadeira beneficiária do iate, contestaram judicialmente a decisão, alegando que o Governo de Antígua não tinha qualquer base legal para confiscar a embarcação. Ainda assim, o leilão avançou durante o verão de 2023.
A proposta mais elevada foi apresentada pelo ex-CEO da Google Eric Schmidt, que ofereceu $68 milhões (€58 milhões). Contudo, acabou por retirar a oferta devido ao agravamento da disputa judicial entre a filha de Guryev e o Governo de Antígua.
“Quem comprar um destes iates vai precisar de aconselhamento jurídico muito sólido. Não vai querer passar a vida a olhar por cima do ombro.” – Richard Lambert, corretor de iates
Em julho de 2024, o Governo acabou por vender o Alfa Nero precisamente a Robert Yuksel Yildirim, o mesmo empresário turco que já tinha adquirido o Axioma. Desta vez conseguiu um negócio ainda mais vantajoso. Pagou apenas $40 milhões (€34 milhões) — menos de metade do valor que a embarcação já teve. Depois de descontados os $9 milhões (€7,7 milhões) gastos pelo Governo de Antígua na manutenção do iate, o dinheiro restante foi utilizado para amortizar dívida pública. Mais uma vez, nenhum montante foi destinado à Ucrânia.
A filha de Guryev continua a contestar o processo nos tribunais de Antígua, dos Estados Unidos, da Rússia e dos Emirados Árabes Unidos. Acusa o Governo de Antígua de corrupção e de ter recebido uma comissão ilegal na venda da embarcação — acusações rejeitadas pelas autoridades locais. Embora não tenha conseguido recuperar o Alfa Nero, obteve entretanto uma pequena vitória noutro processo.
No verão passado, um tribunal russo ordenou a apreensão de uma fábrica de ferrocromo pertencente a Yildirim e ao seu irmão. O empresário recusou comentar o caso. Os representantes de Guryeva-Motlokhov e do Governo de Antígua também não responderam aos pedidos da Forbes.
Um ativo que poucos querem comprar
Toda esta sucessão de batalhas judiciais e estruturas de propriedade opacas teve uma consequência inevitável: reduziu significativamente o valor destes ativos. A incerteza é enorme. E se um comprador levar o iate para um país que não reconhece a legalidade da venda? E se a embarcação acabar novamente apreendida por ordem do anterior proprietário? “A náutica de recreio deve ser sinónimo de prazer”, afirma Richard Lambert, corretor da Burgess Yachts, no Mónaco. “Ninguém quer viver constantemente preocupado com potenciais problemas legais. Quem comprar um destes iates vai precisar de aconselhamento jurídico muito sólido.” Talvez seja essa a razão pela qual Robert Yuksel Yildirim já esteja a tentar vender o Alfa Nero. Ou talvez procure simplesmente maximizar o investimento.
Menos de um ano depois de o adquirir por $40 milhões (€34 milhões), colocou-o no mercado por $101 milhões (€87 milhões), um valor 153% superior ao preço de compra. O iate esteve em destaque durante o Grande Prémio do Mónaco, em junho. Também colocou o Axioma à venda por $63 milhões (€54 milhões), mais 67% do que aquilo que pagou pela embarcação.
E a conta pode ainda aumentar
Para os contribuintes, porém, o problema poderá estar longe de terminar. Em vez de tentarem recuperar embarcações que entretanto perderam valor, alguns antigos proprietários começam agora a optar por outra estratégia: exigir indemnizações aos Estados que congelaram os seus bens.
Uma empresa offshore que afirma ser proprietária do Royal Romance, um superiate de 303 pés (cerca de 92 metros), avaliado em $200 milhões (€172 milhões), apresentou uma ação contra a Croácia exigindo mais de $40 milhões (€34 milhões) de compensação pelos prejuízos causados pela impossibilidade de utilizar a embarcação enquanto permaneceu congelada. Até ao momento, a maioria destes processos não teve sucesso. Ainda assim, os especialistas acreditam que os riscos para os governos irão aumentar.
Se mais tribunais concluírem que determinadas sanções foram ilegais — ou que o congelamento de certos ativos foi juridicamente inválido, como aconteceu recentemente na Alemanha -, poderá abrir-se a porta a pedidos de indemnização de elevado valor. “Nos casos em que as sanções venham a ser consideradas ilegais, é muito provável que surjam pedidos de indemnização”, afirma Bertrand Malmendier, advogado sediado em Berlim e envolvido em vários processos relacionados com superiate.
Quem vencer essas ações poderá reclamar compensações pela desvalorização das embarcações, pela perda de receitas de aluguer (charter) e pelos custos de manutenção suportados ao longo dos anos. Nos Estados Unidos, onde as apreensões seguiram normalmente processos jurídicos mais sólidos do que na Europa, esse cenário é menos provável. Ainda assim, nem aí está completamente afastado. Sobretudo porque o contexto político mudou. “Naturalmente que eles têm legitimidade para intentar ações judiciais”, afirma um antigo conselheiro do Office of Foreign Assets Control (OFAC), organismo do Departamento do Tesouro responsável pela aplicação das sanções económicas. “Estamos a falar de um grupo extremamente rico e muito litigante.”
Uma operação mediática que acabou num fracasso
Aquilo que começou como uma campanha altamente visível para demonstrar o apoio do Ocidente à Ucrânia acabou por produzir um resultado muito diferente. Milhões de dólares de dinheiro público foram consumidos na manutenção de embarcações que permanecem imobilizadas. A Ucrânia praticamente não beneficiou dessas verbas. Vladimir Putin e os seus aliados também não parecem ter sofrido qualquer impacto significativo. Como escreveu um conhecido economista, “a solução do Governo para um problema costuma ser tão má como o próprio problema”. Ou talvez pior.
Texto original aqui. Artigo traduzido e editado por Paulo Marmé.





