Portugal poderá chegar a 2036 num mundo muito diferente daquele que conheceu nas últimas décadas. A ordem internacional está em transformação, os Estados Unidos estão a redefinir o seu papel, a China afirma-se como potência global e a Europa enfrenta o desafio de encontrar uma posição comum num contexto geopolítico cada vez mais instável.
Segundo Francisco Seixas da Costa, embaixador e consultor, e Jorge Silva Carvalho, analista de estratégia, segurança e defesa, a próxima década será precisamente marcada pela incerteza quanto àquilo que substituirá a ordem internacional vigente desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Os dois especialistas participaram na conferência que assinalou os 10 anos do Jornal Económico, que decorreu na Alfândega do Porto, hoje, quarta-feira, dia 7 de outubro, e que incluiu um debate dedicado aos desafios que Portugal e o mundo enfrentarão até 2036.
Jorge Silva Carvalho, que há seis anos participa no podcast A Arte da Guerra, dedicado à política externa e aos grandes acontecimentos internacionais, começou por sublinhar a dificuldade de antecipar o mundo que existirá dentro de dez anos. Na sua leitura, uma das principais incógnitas será perceber se será possível manter algum nível de estabilidade num cenário internacional em que os Estados Unidos estão a assumir uma posição mais revisionista.
A mudança de atitude de Washington, defendeu, coloca em causa consensos que durante décadas sustentaram o sistema internacional. Se os Estados Unidos deixarem de desempenhar o papel de garante dessa ordem, poderá abrir-se um vazio que será ocupado por novas potências e por países intermédios.
É neste contexto que surge uma das grandes incógnitas para a próxima década: a Europa
Na opinião de Jorge Silva Carvalho, a Europa nunca conseguiu exercer plenamente a influência internacional correspondente à sua dimensão económica e política. Entretanto, a guerra na Ucrânia e a postura da Rússia colocaram diretamente em causa a segurança europeia e expuseram as diferenças entre os 27 Estados-membros.
“Vai ser cada vez mais difícil” alcançar um consenso, alertou, considerando que os países europeus têm perceções diferentes das ameaças e prioridades geopolíticas distintas. A questão central é, portanto, saber se a União Europeia será capaz de definir uma posição conjunta em relação a um assunto tão importante como a segurança.
E há uma questão que, na opinião do analista, Portugal terá de responder: que leitura faz Portugal da Europa e do seu futuro?
Francisco Seixas da Costa partiu de uma ideia simples para explicar a dimensão da mudança em curso: a única constante é a mudança. No entanto, há momentos em que essa transformação se acelera e em que um ciclo termina antes de outro estar claramente definido. “Estamos perante o fim do direito internacional tal como o concebemos ou a sua reinvenção”, defendeu.
Lembrou ainda que a ordem internacional estabelecida após 1945 foi sucessivamente transformada pela descolonização, pelo surgimento de novos Estados e pelo desenvolvimento de novas potências económicas e geopolíticas. Mais recentemente, o crescimento do chamado Sul Global e a emergência de novas alianças aceleraram esta transformação.
A questão já não é saber apenas se o mundo continuará a ser dominado por uma ordem ocidental, mas sim compreender que tipo de ordem mundial emergirá.
Segundo Seixas da Costa, os Estados Unidos da América desempenharam, durante décadas, o papel de “guarda” do sistema internacional. A mudança desta posição tem consequências profundas, visto a ordem internacional não assentar apenas em organizações, mas também em valores e princípios que os Estados se comprometeram a seguir, embora em graus diferentes.
A Europa entre a dependência e a mudança
É precisamente na Europa que esta mudança poderá ser mais difícil de gerir. Durante décadas, lembrou Seixas da Costa, a Europa beneficiou de uma espécie de “cinto de segurança”: contou com os Estados Unidos para a defesa, manteve relações económicas e energéticas privilegiadas e, entretanto, avançou num processo de desindustrialização.
Esse modelo está hoje a ser posto em causa. “A Europa tem estado a ser rica e a ir levando a sua vida”, resumiu, mas está agora perante uma realidade em que já não pode assumir como garantidos os mesmos equilíbrios.
A própria integração europeia torna a resposta mais complexa. São 27 Estados-membros, com diferentes interesses, diferentes proximidades geográficas e diferentes perceções das ameaças. A capacidade de construir uma política externa e de segurança verdadeiramente comum torna-se, por isso, um dos grandes desafios da próxima década.
Para Portugal, país profundamente dependente da integração europeia, a questão ganha uma dimensão adicional: o país não está simplesmente a assistir à transformação da ordem internacional. Está integrado numa Europa que também está a ser transformada por forças que não controla.
“Estamos num processo de transição à escala global em que nós não estamos a conduzir, pelo contrário, estamos a ser conduzidos”, afirmou Seixas da Costa.
As Nações Unidas perante uma nova ordem
A transformação também coloca em causa instituições como as Nações Unidas. Criada no pós-guerra, a organização nasceu num mundo muito diferente do atual e manteve uma estrutura de poder que já não corresponde inteiramente à distribuição de forças do século XXI.
Seixas da Costa considera o sistema atual particularmente difícil de reformar, nomeadamente pela composição do Conselho de Segurança e pelos interesses divergentes das grandes potências. Uma verdadeira reforma exigiria, na sua perspetiva, um momento “refundador” que não parece estar hoje no horizonte.
Ainda assim, as Nações Unidas poderão continuar a desempenhar um papel através do vasto conjunto de organizações e mecanismos de cooperação internacional que foram construídos ao longo das últimas décadas.
A dúvida está em saber até que ponto conseguirão continuar a funcionar como instrumentos de paz e de cooperação num mundo em que regressa a lógica da competição entre grandes potências.
A guerra também está a mudar
Se o mundo de 2036 será mais imprevisível, também a própria natureza dos conflitos será diferente. Jorge Silva Carvalho chamou a atenção para a transformação das forças armadas provocada pela guerra na Ucrânia, pela utilização de drones terrestres, marítimos e aéreos e pela crescente integração da inteligência artificial.
A Ucrânia tornou-se, na sua leitura, um verdadeiro laboratório militar. Uma das principais aprendizagens está relacionada com a necessidade de alterar profundamente a logística e os modelos de produção de equipamento militar: produzir mais depressa, reduzir a dependência de grandes stocks e recuperar capacidade de produção em série.
A tecnologia passou, assim, a estar no centro da guerra. Mas também trouxe novos riscos. A inteligência artificial, a guerra híbrida, os ataques digitais e, sobretudo, a desinformação estão a criar novas frentes de conflito que ultrapassam o campo de batalha tradicional.
Para Silva Carvalho, a Europa demorou a reagir a estas ameaças. E os líderes políticos, as forças armadas e as forças de segurança terão de aprender a lidar com uma realidade em que nem todos os ataques assumem a forma de uma invasão militar. A guerra de informação é já parte desse novo cenário.
O tempo que a Ucrânia está a dar à Europa
Apesar do tom pessimista, Jorge Silva Carvalho identificou também um possível lado positivo no conflito da Ucrânia. A resistência ucraniana está, na sua perspetiva, a contribuir para desgastar a Rússia e, simultaneamente, a proporcionar à Europa um recurso que poderá revelar-se decisivo: tempo.
Tempo para reforçar as suas capacidades militares, reorganizar a indústria de defesa, adaptar a logística, desenvolver tecnologia e, sobretudo, decidir se quer assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança.
A questão é saber se a Europa conseguirá aproveitar esse tempo. É esse, talvez, um dos maiores dilemas que Portugal e os restantes países europeus terão de enfrentar até 2036: continuar a depender de uma ordem internacional que está a desaparecer ou preparar-se para uma realidade em que a Europa terá de assumir uma parte muito maior da responsabilidade pelo seu próprio futuro.





