A revolução tecnológica deixou de ser uma promessa futura e tornou-se parte integrante do dia-a-dia bancário e tornou-se infraestrutura do dia a dia bancário. Em 2025, a adoção da IA no setor financeiro europeu entrou numa fase de consolidação operacional: a Autoridade Bancária Europeia (EBA)indica que 92% dos bancos da UE já utilizam IA, estando os restantes 8% em fase de teste ou discussão de casos de utilização, o que representa um ponto de não retorno na maturidade do tema.
Este movimento não se tem limitado apenas ao continente. No Reino Unido, 75% das instituições declararam já utilizar IA, segundo o inquérito conjunto do Banco de Inglaterra/Autoridade de Conduta Financeira de novembro de 2024, o que representa um aumento face a 2022. Na Europa, estudos setoriais indicam que cerca de 90% das instituições financeiras já integraram a IA de alguma forma, embora muitas ainda se encontrem em estágios iniciais.
No mercado hipotecário, 2025 trouxe uma recuperação gradual da concessão de crédito à habitação, impulsionada por condições monetárias mais favoráveis: após quase dois anos de queda, os fluxos de novos empréstimos à habitação voltaram a crescer no 4.º trimestre de 2024 e aceleraram nos primeiros meses de 2025, com diferenças relevantes por país. Os dados do portal de dados do BCE corroboram a evolução dos saldos e fluxos de crédito à habitação ao longo de 2025.
Atualmente, o mercado exige soluções mais inteligentes, com maior capacidade de rastreabilidade, personalização e adaptação, aspetos que apenas a tecnologia avançada pode proporcionar.
É aqui que a IA apresenta uma vantagem decisiva. A sua capacidade de processar grandes volumes de dados, detetar padrões complexos, automatizar decisões em tempo real e reduzir a necessidade de intervenção manual faz dela uma ferramenta essencial. Já não se trata apenas de fazer mais com menos, mas de o fazer melhor, mais depressa, com maior controlo e com menos risco de erros.
A IA está a ser aplicada de forma estratégica para melhorar a eficiência e a gestão de risco nas operações hipotecárias. Os intervenientes estão a implementar soluções avançadas, como o processamento de documentos com recurso à PNL (Processamento de Linguagem Natural), que automatiza a receção e a classificação de documentação sensível, o KYC/KYB automatizado (Conheça o Seu Cliente/Conheça a Sua Empresa), que acelera e garante os processos de verificação, o processamento direto para a concessão de crédito, que reduz drasticamente os tempos e a intervenção manual, e a deteção de anomalias e AML (Combate à Branqueamento de Capitais), que reforça a segurança e a conformidade regulamentar. Estas implementações têm um impacto direto na melhoria das operações, proporcionando uma maior eficiência em cada etapa do ciclo de vida do crédito hipotecário, enquanto reduzem os erros humanos, permitindo que os recursos humanos sejam reatribuídos a tarefas de maior valor estratégico.
Na prática, isto traduz-se em capacidades como a leitura, a classificação e a validação automáticas de documentação hipotecária por meio de tecnologias de inteligência documental, capazes de extrair dados relevantes, detetar inconsistências e reduzir drasticamente a intervenção manual. A isto acresce a utilização da IA de voz para analisar e compreender conversas, permitindo transformar chamadas e áudios em informações estruturadas que alimentam os processos empresariais em tempo real. Por seu turno, a IA generativa introduz uma nova dimensão no fluxo de trabalho, facilitando a síntese inteligente de processos, a elaboração de resumos executivos e o apoio à tomada de decisões com base em grandes volumes de informação heterogénea.
É claro que esta evolução exige uma reflexão crítica e proativa sobre temas-chave: a governança algorítmica, a proteção de dados e a conformidade regulamentar devem ser consideradas desde a fase de projeto. A IA, quando bem implementada, não só aumenta a eficiência, como também promove a confiança. E essa confiança é, provavelmente, o ativo mais valioso num setor financeiro em que a mitigação de erros e a segurança são princípios inegociáveis.
A IA não substitui a experiência humana, antes a potencia. Em 2025, o setor hipotecário entrou numa nova era em que a inteligência digital reforça a disciplina operacional e a segurança. Em 2026, o fator diferenciador deixará de ser “ter IA” para passar a ser governar e integrar a IA de forma responsável, com métricas claras, auditorias contínuas e foco no cliente.
Miguel Madeira,
Co-fundador e CTO da Finsolutia





